KUNG FU – Essência para a Vida

É normal quando comentamos ou apresentamos certa artes marciais às pessoas, a primeira idéia que lhes vem em mente são entendimentos como “luta”, “competição” ou “defesa pessoal”. Ainda mais tal compreensão tem crescido dentro do contexto que a mídia tem trazido através das competições de UFC e de Reality Shows, como por exemplo o Ultimate Figher.

Em contrapartida, quando falamos de Kung Fu, a primeira idéia que nos vem em mente são os filmes consagrados, como de Bruce Lee, Jet Lee ou Jackie Chan. Todos eles recheados de confrontos e lutas intermináveis do início ao fim. Mas fica uma pergunta no ar: será que Kung fu e artes marciais devem ser reduzidas simplesmente a este entendimento citado acima? Ou será que existe algo mais profundo que no senso natural não podemos compreender?

Durante minha caminhada nos estudos de arte marcial e em específico o Ving Tsun Kung Fu, que é uma das variadas manifestações da artes marciais chinesas, tenho vivenciado nesse tempo uma compreensão que ultrapassa tudo que foi citado acima e que só pode ser vivenciado no dia a dia de sua prática. Sobre isso que quero compartilhar nas próximas linhas.

Primeiramente, precisamos entender o que vem a ser realmente “Kung Fu “? O ideograma desta palavra é “功= Gung 夫= Fu”. O termo “Gung” podemos traduzir como um trabalho executado manualmente que exija força, ao passo que “Fu” representa o indivíduo dotado de experiência ou habilidade. Em resumo podemos entender desta palavra Kung Fu, que diz que trabalho vem com habilidade e esforço. Aprofundando mais, Kung Fu não está reduzido meramente a lutas, mas a qualquer atividade executada por alguém e que esta pessoa com devido esforço alcance a necessária habilidade para exercê-la.

Na China é comum vermos pessoas se direcionarem a outras dizendo que essas possuem um bom Kung Fu. E na maioria das vezes essas outras pessoas não estão lutando, mas são escritores, pintores, cozinheiros ou qualquer coisa que é feita com necessidade de certa habilidade. Se é feito com excelência é sinal que possui bom Kung Fu.

Trazendo para a realidade da prática e o que tem sido realmente lastimável, é a precária compreensão de muitas  pessoas que praticam artes marciais em geral e que não compreendem seu real sentido. Muitas vezes tais pessoas estão transbordando de técnicas, em suas mostras, fazem verdadeiros shows. Porém tais técnicas são vazias e não reproduzem o bom kung fu.

O bom kung fu não pode ser aprendido somente em livros ou vídeo aulas de artes marciais, e muito menos somente nas academias em uma rotina costumeira de treinos intensos, passando horas a fio até que nossos corpos se esgotem. Achamos que isso nos fará excelentes na arte marcial.

Infelizmente tenho uma péssima notícia para quem pensa assim. Se escolheu este caminho, você terá muita técnica, e talvez poderá até impressionar muitas pessoas, mas tudo isso será cheio deessencia do kung fu artificialidade e não leva o legado tradicional da arte marcial, independente de qual seja.

No caso da arte Ving Tsun, que é a arte que pratico, o mesmo só pode ser aprendido em sua excelência através da vivência kung fu. Isso é vivenciado principalmente entre o mestre e seu discípulo, e este com seus irmãos kung fu. A vida Kung Fu representada por essa família abrange muito mais do que simplesmente técnicas. Nossas vidas, nossos treinos podem ser imensamente enriquecidos e aprendermos muito mais em uma simples conversa de troca de experiências com nosso Sifu (Mestre) ou Sigung (avô).

Por exemplo, é normal muitas vezes treinarmos algum exercício intensamente e continuarmos errando nele. Depois que paramos e gastamos um pequeno tempo de diálogo com nosso sifu, muitas vezes fora deste contexto, naqueles momentos de descontração, em poucas palavras, ter este mesmo treino totalmente mudado. Isso é fruto da vivência Kung Fu. Podemos ser excelentes professores, ensinarmos as técnicas como muita perfeição. Mas o maior mérito não está em fazer pessoas tecnicamente excelentes, mas o grande desafio é pegar pessoas com problemas e conseguir ajudá-las a resolvê-lo ou pessoas extremamente estressadas que consigamos deixá-las extremamente relaxadas. Este sim é o grande desafio e o grande mérito da arte marcial. Aqueles que conseguem melhorar a vida das pessoas através da arte marcial, esses podemos considerar como sendo os verdadeiros e bons mestres.

Já tive a oportunidade de trabalhar com pessoas com características que poderíamos dizer “impossível” mudar. Tivemos uma aluna que acompanhei de perto seu desenvolvimento, treinando com ela e muitas vezes doando meu tempo de treino para esta pessoa. Uma jovem extremamente rígida, sem coordenação motora e compreensão de lado. Se dizíamos para golpear com esquerda, ela golpeava com a direita e vice versa. Algo extremamente desafiante, mas que me motivou a trabalhar a perseverança e paciência com essa jovem. Os frutos foram claros e com o passar dos tempos pudemos ver o progresso daquela mulher e o quanto ela melhorou nos treinos.

Outro exemplo que gosto de citar é de uma criança com transtorno bipolar. Era extremamente agitada, rígida e tinha uma grande dificuldade de compreensão do que lhe era explicado e principalmente concentração. Novamente como paciência e perseverança, pudemos ver a vida daquela criança mudando aos poucos durante semanas e meses.

Esses são um pouco dos benefícios que podemos ver através de uma arte marcial aplicada dentro de um entendimento correto. Falo do Kung Fu, porém isso pode e deve ser a máxima de qualquer arte marcial e de seu mestre; não formar alunos, mas discípulos e pessoas melhores para o amanhã. É claro que com o exercício da arte, a manifestação de luta em uma situação extrema poderá ocorrer, mas mesmo assim, lutar torna-se a última possibilidade diante de um confronto, pois podemos conseguir vencer a maioria dos confrontos sem levantar nossas mãos contra nosso ofensor, simplesmente usando o Kung Fu em sua essência.

Autor: Pedro Rêgo

3ª Ger. de Mestres de Yip Man

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