Compreendendo o Ideograma Chinês “Arte Marcial”

武术

Muitos praticantes de artes marciais possuem uma falsa compreensão do real significado deste termo, tendo em mente a idéia de o que faz uma pessoa ser um bom Artista Marcial é sua dedicação de horas a fio em treinos estressantes e desgastantes, ou até mesmo ser um renomado campeão nas arenas de combate.  A mídia moderna, através de reality shows, competições televisivas e filmes tem contribuído em muito na propagação deste falso entendimento.

Outro conceito errôneo de muitos artistas marciais é limitarem o conhecimento apenas ao seu físico (corpo), esquecendo que o conhecimento não se restringe somente a este âmbito, mas sim a um conjunto composto por corpo e mente. Tendo este entendimento, uma pessoa jamais será um bom artista marcial se não buscar este conhecimento como um todo.

Para sermos bons artistas marciais de uma arte chinesa, faz-se necessário aprender sua cultura e seus princípios. O mesmo se aplica à artes marciais de outras origens. Como aprender capoeira, sem aprender a cultura africana; como aprender karatê, sem aprender a cultura japonesa, como aprender o taekwondo sem aprender a cultura coreana, como aprender o Abir, sem aprender a cultura Judaica?

O pensamento filosófico e a cultura de um povo pode ser revelada através de seus manuscritos históricos, contos, provérbios, lendas ou até mesmo através de sua escrita. Na cultura oriental podemos aprender muito através de sua escrita e como a mesma é composta.

Neste texto, a proposta é estudar um pouco sobre o significado e a comprensão cultural  chinesa do termo “Arte Marcial”.

Wu – Chinês

 

O ideograma (武) significa “marcial” e está também associado com bravura. Ele é composto por dois radicais (止= Zhǐ), parar, e (戈= Gē), alabarda/lança, sendo assim podemos interpretar que aAlabarda chinesa junção dos dois radicais irá significar literalmente “parar a lança ou alabarda[1].

Um artista marcial pode encontrar interpretações interessantes para esses caracteres. O ato de parar esta arma pode ser considerado como uma ação de não violência, pois significa parar a violência antes que esta ocorra. Por outro lado, a arma também representa o ato de “lutar” ou até mesmo o termo “Guerra” e dentro desta mesma compreensão, entendemos como parar uma luta ou parar uma guerra.

Por outro lado, parar uma lança pode implicar que o oponente sem a arma é forte, habilidoso e treinado em ciência marcial.  Um guerreiro teria que ser muito confiante e poderoso para ser capaz de parar uma lança em combate. Ambas as possibilidades oferecem ao artista marcial uma visão da profundidade das artes.

Assim como Yip Man, seus discípulos e também Bruce Lee, sempre defenderam esta idéia de “Ganhar sem lutar” (不戦而屈), visto que esta forma de pensamento não é de autoria deles, mas é uma expressão chinesa presente na cultura da China. Também encontramos um paralelo no cristianismo, principalmente quando vemos Jesus ensinando Pedro, quando este cortou a orelha de um servo, dizendo “Guarde a espada, porque todos os que a usam morrerão por meio dela.” (Mateus 26:52).

Shù – Chinês

 

O ideograma (术) possui alguns significados interessantes tais como “arte, habilidade, talento especial; método, técnica”. Também traz a compreensão de tática ou estratégia.

Esta habilidade ou talento especial, pode ser natural ou adquirida. Mas também, mesmo que natural, há a exigência de um certo estudo e prática para aprimoramento de sua tática ou estratégia.

Agora com esta compreensão acima, conseguimos entender melhor o conceito de “Inteligência Marcial” que tanto é falado no Wing Chun, principalmente na linhagem de Grão Mestre Moy Yat; o talento, seja ele natural ou adquirido através de um estudo de métodos e técnicas gera uma capacidade de parar uma guerra.

Trazendo para a atualidade, de forma geral não enfrentamos mais guerras diárias corpo a corpo, principalmente no Ocidente. Após analisarmos a compreensão de Arte Marcial dentro do contexto da cultura chinesa somos desafiados a entender que o bom artista marcial sempre irá buscar a negociação do conflito, evitando sim ao máximo os combates corpo a corpo. Quando esses forem inevitáveis, não usará somente o corpo mas será uma luta inteligente, estratégica que usa a totalidade da técnica com o conhecimento. A nossa maior batalha não está à nossa frente e muito menos nosso inimigo não está ao nosso redor. Nossa maior batalha é com nossa própria pessoa, nossos paradigmas, preconceitos, complexos e medos.

Quando aprendemos a lidar com nosso EU, certamente saberemos lidar com as pessoas de nosso círculo de relacionamento ou não. Seremos capazes de parar guerras antes mesmo que se iniciem e consequentemente vencermos, pois seremos sim agentes de paz em meio a uma sociedade tão conturbada e de valores deteriorados. Isso é válido para todas as esferas da sociedade, seja na família, na escola, trabalho.

Finalizando, Arte Marcial precisa ser encarada como “educação” e não “competição”. O desenvolvimento das habilidades estratégicas de combate devem ser através da cultura e do ensino.

 

Autor: Pedro Rêgo

“A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar.” ― Sun Tzu

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[1] Alabarda (戟)é uma arma medieval composta por uma longa haste. A haste é rematada por uma peça pontiaguda, de ferro, que por sua vez é atravessada por uma lâmina em forma de meia-lua (similar à de um machado), com um gancho ou esporão no outro lado.

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